"Já não sentia mais as pernas, pareciam estar penduradas num corpo inerte, preso pela cintura ao tampo de madeira do bar. Seu rosto afogueado sentia os olhos arregalados que queimavam pelo bafo inerente do álcool ingerido a noite toda. Sabia que não aguentaria por muito tempo, logo perderia os sentidos: já não controlava a fala, a razão e muito menos a bebida que ingeria.
Tudo tinha um motivo, mas já não lembrava a causa que o levara àquela bodega. Bebia há horas em companhia de pessoas que nunca vira antes e que tornaram-se seus mais novos "velhos camaradas". Alguns já haviam se despedido, outros dormiam encovados nas cadeiras rotas e disformes do salão e outro jazia estático perto da porta do banheiro.
Sabia que se tomasse mais uma dose daquele uísque barato e de textura suspeita seria seu fim. Uma saliva rançosa escorria do lado esquerdo de seus lábios, fazendo com que o rosto do barman se contraísse de nojo. O empregado lembrou que o dono do bar estava à espreita na cozinha. Fechando os olhos, limpou a saliva do cliente com um guardanapo de papel, ansiando que as sete da manhã e o fim de seu turno chegassem logo.
O cliente do balcão tinha a consciência de que precisava parar, não poderia virar aquele resto de bebida e achar que tudo ficaria bem. Num esforço inumano, lembrou-se com uma careta de que não pagara a última rodada. Empurrando o peito que estava apoiado no balcão, enfiou três dedos dentro do bolso da calça tentando pegar os últimos trocados e o que encontrou foi o toque frio e tiritante de sua aliança. Como num sonho, lembrou-se do porquê estava ali, do porque bebera tanto. Seus olhos congelaram-se. Olhando para o barman com dignidade, jogou as notas amarfanhadas com moedas que fugiram como ratos pelo balcão e disse: - Ligue para o hospital.
E tomou sua última dose de uísque."
sábado, 27 de julho de 2013
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