quarta-feira, 21 de abril de 2010

Medo

Era dolorido imaginar a que horas ele chegaria. Em seu íntimo ansiava ardorosamente que o relógio corresse ao contrário retardando assim seus momentos de angústia. Mordia as pontas dos dedos arrancando pequenos pedaços imaginando ser o plástico mole de um canudo de refrigerante. Estava na hora.
Sentiu-se flutuar em água salgada. Fechou os olhos e constatou que não era um sentimento pacífico. Notou estar presa e embebida em algo rançoso que impedia determinadas reações. Era o medo. Lentamente dirigiu-se ao quarto, refúgio sedutor em horários como aquele. Apressou o passo ao ouvir o barulho do portão.
Sentou em sua cama e esperou. A qualquer momento ouviria os primeiros protestos, os berros de insatisfação em estar vivo e da obrigação em dividir sua casa alugada com mais três mulheres e um filho.
Ela afundou uma almofada em seu rosto deitando-se de bruços. Incrivelmente não ouviu seu nome ser bradado pelo quarteirão. Se a memória não falhasse, tinha a plena certeza de que tinha feito suas obrigações de maneira satisfatória. Fugia de encontros ou esbarrões com ele. Queria distância da aura petrificada e do peito oco de seu desumano pai.
* * *
A menina sentou-se à mesa para a refeição fria e sem sabor que digeria diariamente sem nenhum entusiasmo. O pai tomava a cabeceira do lugar e como mandava o costume, ligou o rádio de pilhas tentando em vão encher a cozinha com música ao invés do ar rarefeito que sujava o ambiente. Infelizmente, a família já estava fadada a viver com aquele ressaibo pairando sobre suas vidas.
Arroz, feijão, bife. As crianças alimentavam-se em silêncio, sem alegria. Mecanicamente, levavam a colher à boca sonhando em provar um pouco de amor misturado ao dia a dia rotineiro. O silêncio era prestado em respeito ao humor canastrão do pai.
De repente, um pulso foi arremessado incontinenti em direção à mesa. A menina engasgou. O pai pedia salada. Onde estava os legumes que comprara na semana anterior? A mãe, um pouco mais corajosa respondeu em voz inaudível que acabaram. seria necessário ir ao mercado novamente. A menina fechou os olhos quando viu o pai levantar-se. Ouviu o abrir da geladeira e a voz gutural de seu pai perguntando sobre os tomates que brilhavam na gaveta de legumes. A menina não achava necessário abrir os olhos pra testemunhar o q acontecia. Sabia q seu pai abraçava o conteúdo da gaveta da geladeira e lançava com toda a força sobre o chão da cozinha. Podia distinguir o barulho dos tomates sendo esmagados e o som das batatas correndo para debaixo do fogão.
Após ter saciado sua fúria sob o olhar baixo e temeroso de seus filhos e mulher, o pai sentou-se na mesa esperando finalmente poder terminar seu almoço. Ao abrir os olhos, a menina contemplou com terror o chão da cozinha de concreto encerado em vermelho. Parecia que alguém havia sido esquartejado bem ali à sua frente. Era como se pedaços de um corpo estivessem ali esperando ser retirados. Não conseguia mover-se. A sensação de estar flutuando sobre água salgada voltara.
Assim como a paz, a fome fugira e ninguém mais conseguia engolir sequer um grão de arroz, a despeito do pai. Ele comia com a tranquilidade de um condenado que fazia sua última refeição antes de sua sumária execução.
A respiração rápida e nervosa dos presentes era encoberta pela música orquestrada que teimava em soar naquele ambiente tomado pelo terror. A menina já conseguira abrir os dedos crispados pela tensão de momentos atrás. E sem esperar, a música foi interrompida e a seguinte mensagem foi noticiada:
-É com imenso pesar que informamos o falecimento do ator comediante Zacarias do grupo Os Trapalhões...
A menina deixara escapar um grito. Atrevera-se a tanto. A surpresa tinha sido tão grande que ela não conseguira se conter. Ainda olhando para o rádio sujo de pedaços esmagados de tomate, sentiu uma bofetada em seu rosto dada por um chinelo que voara em sua direção. Tonta e com a mãe esquerda calçando a ferida, ouviu-o dizer: "Isso é pra vc aprender a não gritar mais na mesa."
Pela primeira vez, a menina sentiu a força do ódio invadir seu corpo ainda em mutação. Era revigorante. Vingança... Doce palavra.